Humor é o único modo de enfrentarmos nossa existência absurda, diz dramaturgo espanhol

Por Maria Luísa Barsanelli

Autor de comédias irônicas, o espanhol Jordi Galceran, 52, ganhou a alcunha de “rei do humor negro”. Mas vê sua comicidade (“única forma de enfrentarmos nossa existência absurda”) nascer da dor.

O dramaturgo fez fama com “O Método Grönholm” (2003), sobre o desumano das relações. Voltou ao tema em “O Crédito”, que ganha versão brasileira nesta sexta (3), com o nome de “O Empréstimo”, direção de Isser Korik e André Mattos e Leonardo Miggiorin no elenco. A trama com contornos de absurdo traz um homem que, desesperado, pede um empréstimo num banco.

Leonardo Miggiorin (esq.) e André Mattos em ensaio de ‘O Empréstimo’ (Lenise Pinheiro/Folhapress)

Galceran conversou por e-mail com a coluna:

“O Crédito” nasceu dentro de um torneio de dramaturgos. Como foi o processo?

Na competição, precisávamos escrever um texto para dois personagens e enfrentávamos outro com as mesmas características. O público votava e passávamos pelas eliminatórias. “O Crédito” ganhou a primeira edição [do Festival Temporada Alta de Gerona] e logo foi encenado.

Você fala da peça como uma comédia romântica. Por quê?

A concessão do crédito é apenas um pano de fundo. O que importa é o que estamos dispostos a fazer para não perder nossa posição. E, para alguns homens, a sua mulher faz parte também de uma posição social, de um status [na peça, o cliente, entre outras situações absurdas, ameaça transar com a mulher do gerente do banco caso este não lhe conceda o crédito].

O sucesso que teve com “O Método Grönholm” afetou o restante seu trabalho?

Afetou minha conta bancária. E isso me deixou mais livre para escrever o que tenho vontade. Graças a ela, escrevo pouco e tento que cada comédia seja especial. Tarefa nada fácil.

Nos seus trabalhos, você fala muito do desumano, mas com humor. Vê a comédia como remédio para males humanos?

O humor é a única maneira de enfrentarmos essa nossa existência absurda. A vida é dura e no fim morremos. Diante disso, só nos resta lidar com ela com senso de humor.

Você é chamado de “rei do humor negro”. De onde vem a comicidade de suas peças?

O humor nasce da dor. A história de uma boa comédia também deve servir para um drama. É só uma questão de mudar o tom. Pense nas comédias de que mais gostou: os personagens sempre sofrem.

O EMPRÉSTIMO
QUANDO
sex., às 21h30; sáb., às 20h e 22h; dom., às 20h; até 28/5
ONDE Teatro Folha – shopping Pátio Higienópolis, av. Higienópolis, 618, tel. (11) 3823-2323
QUANTO R$ 40 a R$ 60
CLASSIFICAÇÃO 14 anos